Açougue gerenciado por pai e filho é referência em Ribeirão Preto

"Trabalhar com o pai é ter a sensibilidade de entender a diferença, mas o objetivo é o mesmo. É só alinhar as expectativas e o caminho. Acho que tem gente que coloca muita preocupação em trabalhar com os pais, se não fosse meu pai seria outro investidor e teria que alinhar o caminho e objetivos da mesma maneira." Diz Marcelo, Zootecnista, sócio do Vila Beef.


O Brasil é um país com mais de 200 milhões de pessoas e cerca de 115.000 açougues espalhados pelos seus quatro cantos. Não é difícil imaginar a enorme quantidade de particularidades de comercialização, de linguagem, de produto, de gestão, entre outros. 

Às vezes, aparece alguém dizendo para nosso time do Território da Carne: “Estou abrindo falência, vou fazer seu curso”. Eu digo: "Pera lá! Eu não vou tirar você da falência assim da noite para o dia! É preciso ir muito além para enfrentar os desafios do mercado da carne".

No caso do Vila Beef, desde o princípio foi possível notar um negócio sólido. Quanto ao tempo de atividade, não são supernovos, nem dos mais antigos do mercado, mas algo que nos chamou a atenção foi notar que estão abertos a experimentar, a tentar o novo sem amarras e processos engessados e isso, para nós, foi ponto crucial na escolha de estarem entre os três melhores alunos de 2019 - motivo de fazermos esta entrevista pra lá de especial.

Nosso objetivo aqui é conhecer os bastidores, quem é o Vila Beef, qual é essa história de pai e filho e de quebra tirar uma porção de lições do que é o empreendedorismo familiar. Vamos lá?

Andréa: Marcelo, de onde veio essa ideia de trazer seu pai para dentro do negócio?

Marcelo: Obrigado Andrea! Começou em 2013, com a empresa, o Vila Beef. Sou formado na área, em Zootecnia. Trabalhei sempre com pecuária, com produção. Em 2011/2012 eu trabalhei no Beef Point, um ano e meio quase dois, como analista de mercado, pecuária, bovinocultura de corte. Depois desse tempo eu queria sair do escritório, na minha cabeça eu queria voltar pra pecuária, porque como analista eu estava vendo toda a cadeia por cima, eu estava me sentindo fora da cadeia produtiva. Essa foi a maior razão de eu ter saído de lá. Foi uma baita escola e vitrine, de muito aprendizado, conheci quase todo mundo praticamente da pecuária, foi um tempo de aprendizado extremo lá com o Miguel. Nesse período fiquei muito atraído em promover o consumo, vender mais carne bovina. Então eu não queria ir para produção de novo. Eu estava com vontade de estar perto do consumidor, para valorizar a carne bovina. Nosso principal fornecedor é o Roberto Barcellos, na época ele não tinha a marca de carne dele como tem hoje. Então desde o começo, dentro das opções, o caminho que andou mais rápido foi o de vender carne bovina especial, com marca própria, em Ribeirão Preto.

É uma produção artesanal, uma fazenda só, um grupo de produtores, a gente explica para os clientes. Não tinha isso em 2013/2014 aqui em Ribeirão (Preto), um açougue com marca própria, o objetivo sempre foi de mostrar que é possível vender carne bovina com um padrão. A gente sempre pensou nesse caso que você compra uma picanha em um dia e está boa, na próxima vez você volta no mesmo açougue de sempre e não está igual. Ficava sempre na questão de sorte ou azar. Meu maior objetivo sempre foi esse, mostrar que é possível vender carne bovina com segurança, com padrão, com previsibilidade, com garantia de satisfação, como qualquer outro alimento, você compra e é sempre o mesmo. A gente mostra que é possível...

Andréa: Quando foi que vocês falaram "vou abrir uma casa de carnes"?

Marcelo: Foi no comecinho de 2013.

Andréa:  E o que que te fez tomar essa decisão? Você queria estar perto do consumidor?

Marcelo: Eu queria estar perto do consumidor, não queria mais trabalhar como analista de mercado. Querendo estar perto do consumidor fui buscar opções, trabalhar em frigorífico, trabalhar em projetos ou vender a carne do Roberto aqui em Ribeirão. Esse foi o caminho que andou mais rápido. Então "Vamos vender? Vamos". Começamos a planilhar, fazer plano de negócio, estimar faturamento, projeto e não paramos mais.

Andréa: E nesse momento seu pai já estava envolvido nos seus negócios?

Marcelo: Participou desde o começo do estudo do plano de negócio, além de ser investidor.

Paulo: Participei desde o início. O Marcelo com seus conhecimentos na área e eu como investidor participando das decisões.

Andréa: No momento que ele te falou isso, Paulo, você pensou "vai sobrar pra mim"?

Paulo: É. Na realidade, eu trabalho com comércio a bastante tempo, mas não de carne, de vestuário. E aí ele falou que ia começar.  Achei a ideia interessante. Sempre estive ligado à pecuária de alguma forma. Falei, "então vamos lá, vamos investir!" Fizemos essas contas todas e um plano de negócio. A ideia era eu ficar lá uns 6 meses, eu nem tinha mesa, era pra ajudar e depois eu sairia da operação. Hoje 80% do meu tempo eu gasto aqui e os 20% eu cubro as outras coisas que já tinha antes do açougue. Virou uma dedicação pelo negócio, pelo interesse, possibilidade de criação, né? De inovação, enfim.

Andréa: Hoje como vocês estão estruturados na questão hierárquica dentro do Vila Beef?

Paulo: Ficamos bastante tempo numa confusão, acho que todo negócio começa assim, né uma confusão. Ele fazia um pouco de tudo, eu fazia um pouco de tudo. Seja produção, em outras áreas, era tudo misturado, depois fomos acertando e separando. Hoje ele responde pela parte financeira, pela parte de TI, pela compra de carne bovina e pela área comercial e eu com a compra de outros itens, não bovinos, e a produção, loja... O marketing também é o Marcelo.

Andréa: Isso foi lá em 2013, vamos voltar para sua linha do tempo. De 2013 até hoje Marcelo, como é que foi vocês foram trilhando e quais foram os desafios que vocês passaram? Porque quem vê de fora pensa que é tudo maravilhoso, né? Vocês têm uma loja em um bom ponto de Ribeirão Preto - que é uma cidade com um poder aquisitivo legal. Conta para gente como é que vocês traçaram isso, e óbvio, ter um comércio, ter uma empresa é diferente de qualquer outra coisa que as pessoas imaginam. O glamour todo fica só para quem vê de fora.

Marcelo: É engraçado porque quando você abre não entra ninguém. Você abre um negócio novo e fica: e aí, o que vamos fazer? O maior desafio é esse até hoje. Precisamos que os clientes continuem vindo e novos clientes venham. Então acho que rapidamente começamos a ampliar o mix de produtos e serviços, principalmente eventos. Evento foi uma coisa extremamente necessária e que não tinha no plano de negócio. Planejamos tudo só voltado para varejo. Foi uma mudança extra, vamos dizer assim. Além de eventos, produtos processados, curados, defumados, uma busca constante de inovação, novidades para proporcionar curiosidade, prazer nos clientes para gente atrair cada vez mais gente. A gente precisa faturar, como vai faturar? Precisamos ter coisa muito boa, prestar um serviço muito bom e precisa que o cliente enxergue a Vila Beef como um baita lugar legal, baita produto bom, que ele pode vir de olhos fechados e comprar de olhos fechados, pode pedir nossa ajuda e orientações. De certa forma, acho que já conseguimos, desde o começo somos referência em qualidade de produto e serviço. A gente tem que continuar provando e continuar buscando novidades para despertar o interesse da pessoa continuar buscando o Vila Beef.

Andréa: De todo plano de negócio, tudo o que vocês programaram, mesmo assim no dia de abrir, na hora de encontrar com o cliente, vocês entenderam que tinham outras coisas que não estavam contempladas no plano de negócio, como os eventos?

Marcelo: Não no dia que abriu, os eventos vieram uns 6 meses depois. A gente precisava trazer gente para a loja, temos um produto muito bom, precisamos que as pessoas experimentem o produto, vamos fazer uma degustação. Aí que começou.

Andréa: Aí as pessoas vêm, começam entender a qualidade e vocês tem que manter essa qualidade. A responsabilidade aumenta. Justamente por aquilo que você não queria que era o negócio sorte ou azar para comprar uma picanha e isso é desafiador.  Marcelo, Como você consegue isso hoje? Se a carne não é sua, você obviamente acredita na marca que você vende, mas ainda assim são indivíduos. Como é que vocês lidam com isso hoje?

Marcelo: A carne que a gente põe a nossa marca ela tem padrão, a gente confia, tem protocolo produtivo, é muito bem produzida. Em seis anos, nunca tivemos problema. Trabalho muito bem feito do Roberto Barcellos. Aí a gente tem outras marcas de carne, de outros fornecedores, para o cliente ter opção de preço em um mesmo corte, e características e qualidades diferentes. Nessas outras opções de outros fornecedores a gente não põe nossa marca.

Andréa: Então vocês fazem um critério de qualidade para que vocês consigam responder por aquilo?

Marcelo: O que tem nossa marca a gente garante. Se a pessoa não gostar a gente troca, reembolsa, faz o que for preciso.

Andréa: E aí durante esse percurso que vocês estão entendendo mais o seu consumidor, o Paulo até já comentou em uma das aulas, outros players começam a surgir, né? Vocês começam a ficar numa posição em que talvez tem alguém querendo "garfar" seu cliente. Como é que tem sido isso? Como foi nesses anos todos de Vila Beef?

Marcelo: No começo a gente tinha que atrair gente para cá, agora cada vez vai surgindo mais players, a gente sabe que o cliente vai experimentar os outros, por isso temos que fazer ainda melhor que fazíamos. Sabemos que o desafio aumentou muito, tem muita gente vendendo carne, falando que  tá vendendo carne de qualidade, e o cliente está interessado, ele vai buscar, ele tá precisando, ele vai experimentar, ele vai nessas outras casas de carne que estão abrindo na cidade e a gente tem que garantir, fazer o máximo para que ele vá experimentar mas depois volte.

Andréa: E hoje o que vocês diriam que é o diferencial da Vila Beef, para o seu cliente ir experimentar no seu possível concorrente e voltar a comprar com vocês?

Marcelo: Acho que a customização, como a pessoa é atendida, pode ser vendendo nossos peixes, mas falando de açougue, em atendimento e prestação de serviço. A segurança que o cliente tem em escutar a gente, não sei, pelo menos em Ribeirão Preto não tem.

Andréa: Talvez porque vocês são autoridades no assunto? Aonde vocês estão garante não só a qualidade, mas todo o resto que vem junto com processo de vendas, você sente que seu cliente tem essa percepção?

Marcelo: Ah, sim. Várias vezes, mais de uma vez, cliente conhecidos vão experimentar e quando voltam pra comprar novamente no Vila Beef contam que é diferente.

Andréa: Marcelo, o que te tira o sono hoje enquanto gestor de uma casa de carnes com essa referência em Ribeirão Preto?

Marcelo: O que tira o sono é vendas, né? Precisa vender, o que vamos fazer pra vender? Como fazer para vender?  A gente dorme e acorda pensando em ser legal, em ser atraente. Precisa atrair gente, ser legal, ter conteúdo e produto bom. A gente já tem tudo isso, mas tem mais gente falando que tem também. Então o maior desafio é esse, a gente fica criando ações, mecanismos diferentes, pra estar sempre na boca do cliente quando pensar em carne ou em um jantar ou ocasião especial. 

Andréa: Vou replicar ao Paulo, o que que te tira o sono hoje enquanto também gestor, ainda com responsabilidade maior, porque você já vem com uma carga de “eu trabalhava no comércio”. 

Paulo: Eu acho que é a gente tornar o Vila Beef um negócio que a gente possa replicar, acho que vamos precisar fazer isso em algum momento. Acho que a marca ficou maior que um açougue. Então a gente tem muita coisa para explorar nisso, acho que essa incessante busca de novidades e criatividade para atrair clientes. Pra atingir números, Ribeirão é uma cidade grande, mas a concorrência também é muito grande. Hoje até os supermercados estão correndo com as boutiques. A gente não sabe ainda. Virou uma paleta mexicana o mercado da carne ainda vai ter uma depuração em algum momento.

Andréa: O que por um lado eu vejo com muito positivo, porque vai mostrar que não é para qualquer um. Quem se mantém ali é porque tem organização, planejamento, como vocês tiveram. Jogo de cintura, porque também não adianta seguir à risca o planejamento se o mercado está te mostrando que os ventos estão soprando para o outro lado, mas eu gostei dessa frase que você falou, que “A marca Vila Beef ficou maior que um açougue”.

Já que construção de marca é o que muitos tentam e não conseguem e vocês construíram ao longo desses sete anos uma marca, o que vocês podem traçar em cima disso para que essa expectativa do cliente seja atendida? O que vão fazer com isso agora, qual é o desafio de vocês?

Paulo: Eu vejo assim, antes a gente trabalhava carne bovina de qualidade e ficamos nisso um período. Hoje a carne bovina representa de 50% a 60% das vendas, o resto são outros produtos. Então acho que nós temos que crescer por aí, acho que a gente tem que investir. Antes era 80 a 90%, hoje é 60%, as vezes até empata. Tem mês que fica meio a meio com a venda de outros produtos que são processados, empório, enfim. Essa linha de produtos processados que a gente vem fazendo vem crescendo bastante. A gente já fornece salsichas para Hamburgueria, fornece uma linha de massas, ravióli de pastrami, tudo feito aqui, massa e o pastrami com a qualidade surpreendente então esse é o caminho que a gente está buscando.  E mesmo a carne, ela tem mudado, a gente tinha ideia também de vender o boi inteiro, aproveitar tudo do boi, esse é um trabalho que é cultural e muito difícil. Hoje temos uns 90 a 100 itens de carne bovina e se a gente agrupar a picanha, o ancho e outros a gente vende 80% em cinco cortes. 

Andréa: Vocês fazem desossa aí?

Paulo: Não. Temos uns 100 itens de bovino entre cortes e produtos, picanha 4 ou 5, ancho 3 ou 4. Em cortes temos 26 de carne bovina. Temos alguns cortes que nem sai muito, mas fazemos questão de ter porque tem os “aficionados” que vem buscar. Como molleja, chinchulin.

Andréa: Eu tenho visto vocês publicando nas redes sociais - uma das coisas que a gente falou em aula - o produto pronto. Aquele bife wellington de vocês, cada vez que vocês postam, eu quero pegar meu carro para ir comer, porque de fato acho que essa é a grande diferença. Quando você fala que quer trabalhar com consumidores poucas pessoas estão interessadas - ou pelo menos dispostas - a entender como o cérebro do consumidor funciona.

"Ah, eu quero trabalhar, mas eu quero vender o que eu acredito que é legal, não importa o que ele vai ver, o que ele vai sentir, o que ele vai imputar..." E aí um exemplo ontem, eu tive no Varanda Grill, um restaurante bem tradicional aqui em São Paulo, e eu fiz algumas comparações. Vale um pouco do que você tem feito. Espaços muito monocromáticos, muito sério - que se tinha antigamente, steakhouses tradicionais que atendia uma determinado tipo de pessoa e classe social - não traz mais brilho nos olhos do consumidor, aquela questão dos cinco sentidos aguçados e eu tenho percebido que vocês estão fazendo isso de uma forma cada vez melhor, mesmo ainda de uma forma não programada, mas que vocês fazem isso a ponto de dar esse impulso de venda. Aqueles raviólis que vocês colocaram, uma massa pré-pronta, definitivamente o que vocês falam faz bastante sentido. Cada vez mais açougues e casa de carnes como vocês, diminuindo o percentual de carnes e aumentando o de produtos prontos, de valor agregado, mas ainda assim vocês são um açougue,  não viraram empório (e não tem que virar), mas que vocês tenham essa noção de que o consumidor mudou, ele não quer mais comprar só produtos in natura. Eu lembro que você me mostrou, Paulo, quando eu estive aí um produto embalado a vácuo que não era nem tão bonito, um assado que era só para terminar em casa, não era? 

Paulo: Com a sua sugestão melhoramos ele, tiramos um pouco da gordura. É uma costela, você faz ela no forno, 20 minutos em casa. Fica soltando do osso. Acho que multiplicamos por 5 à venda de costela com esse produto. Esses são os itens que a gente vai atrás. Põe três, quatro, cinco novos, um deles acerta. Aí você tira e vai criando outros. Esse é o trabalho incessante aí que a gente faz. O bife welington, por exemplo, é difícil fazer em casa. Difícil também encontrar restaurante que faz, um ou outro tem, mas tem gente que não era cliente Vila Beef e viu o post, talvez nem faça churrasco e veio aqui só para buscar este produto. Esse é o trabalho que a gente busca fazer constantemente.

Andréa: Perfeito! Isso responde um pouco do que o Marcelo colocou e pontuou muito bem. Obvio que a principal luta de quem está à frente de um comércio é: preciso que nossos clientes voltem e que novos clientes entrem. Mas quem são esses novos clientes, aonde estamos buscando esses clientes? Será que é só o cliente das carnes especiais? Acho que não.

Uma coisa que eu vejo muito em vocês, é essa coragem da experimentação. "A gente vai testar cinco produtos, a gente sabe que os cinco produtos não vão dar certo, mas que para eu achar um deles, eu preciso experimentar esses 5 e que desses 1 que der certo pode ser meu MVP" - que se fala tanto agora nas startups. "E aí a gente vai melhorar ele.  Eu criei a costela, ainda não é o melhor cenário, eu tenho gordura ainda que tem aquele aspecto que as pessoas que não querem ver que tem gordura. Então vou tirar a gordura."

E isso eu acho que é uma característica muito positiva de vocês - que provavelmente outras pessoas que estão entrando como concorrência (não gosto muito desse termo, porque acho que cada um tem o seu DNA) não fazem.

Provavelmente quem busca a Vila Beef, é porque gosta da maneira como vocês tratam os clientes, os produtos que vocês vendem. Então não são concorrentes, são parceiros que vendem produtos da mesma natureza e alguns são semelhantes. Mas é isso que eu vejo em vocês. Então os concorrentes que entrarem hoje no mercado dificilmente vão chegar no nível de amadurecimento que vocês estão hoje. 

Andréa: Marcelo, conta pra gente sobre a história de como foi o “deslize “da língua ?

Marcelo: Eu tinha pedido não sei se uma ou duas caixas de língua. Nem lembro porquê, a gente quase não vendia.

Paulo: Duas caixas. Acho que tinha algum cliente pedindo, perguntando.

Marcelo: Duas caixas em um e-mail de pedido e viraram vinte - eu digitei um zero a mais sem querer!

Andréa: Minha nossa! E aí chegaram 20 caixas?

Marcelo: Eu não lembro quando que eu vi o erro, acho que foi antes de chegar à entrega.

Paulo: Chegaram 10 caixas. Falei: "Marcelo, que é isso? 10 caixas de língua!" Aí ele conseguiu cancelar as outras 10.

Andréa: Provavelmente seu fornecedor nem tinha no estoque 20 caixas de língua, né? Ele te mandou todo o estoque que ele tinha, rs! E o que vocês fizeram?

Marcelo: Coincidiu que eu tinha feito em São Paulo, por curiosidade, um curso. Primeiro módulo era de charcutaria básica, linguiças e embutidos frescos, e tinha feito o segundo que era de curados e defumados. Eu tinha feito o curso e tinha 10 caixas de língua, pensei: vamos defumar língua! Risos. Virou um produto que existe até hoje, isso já faz mais de 3 anos.

Andréa: Quanto que você pagou no quilo da língua?

Marcelo: Menos de 10 reais o kg, entre uns R$6,00 – R$7,00.

Andréa: Transformou em um produto de prateleira de cima, nobre, vendido a quanto?

Paulo: Não sei se R$79,00 ou R$89,00 o kg, mas dá trabalho fazer. Muito trabalho.

Andréa: Provavelmente o custo de produção é mais alto também?

Paulo: Temos muita perda também, na limpeza da língua.

Andréa: Seu cliente vai até aí para buscar a língua?

Paulo: Sim.

Andréa: Show de bola! Excelente exemplo de criatividade e resolução de problemas. O Marcelo ia começar a contar outro caso, é isso?

Paulo: Isso, acho que ele lembrou de outra tragédia aqui, rs!

Marcelo: Dos curados e defumados, o peito de frango defumado - em quantidade - é o mais vendido. Foi o primeiro que a gente defumou, bem antes da língua. Eu tinha acabado de fazer o curso de defumação, era final de ano. Ligou o dono de um buffet perguntando se a gente tinha frango defumado pra ele servir no cardápio de fim de ano. Na hora eu falei: frango defumado a gente não tem. Me veio na cabeça que eu tinha feito o curso com o peito de frango defumado, defumar o frango todo eu não sabia se ia dar certo. Aí eu falei, mas a gente tem um peito de frango defumado. Que eu nunca tinha defumado também, só no curso, rs.

E deu certo! Esse curso fiz de curioso, não tinha um planejamento para vender curados e defumados. Foram oportunidades que, por coincidência, foram aparecendo e fomos aproveitando. Aí virou um produto. Esse buffet compra todo final de ano uma batelada de peito de frango defumado nosso. Ele não estava mais achando no mercado.

Paulo: Ele deve fazer salpicão, algo do tipo. O peito talvez seja até melhor pra desfiar.

Andrea: Ou seja, é o famoso “enquanto uns choram outros vendem lenços”, vocês estavam preparados para oportunidade. Por mim escutaria todas as histórias porque eu aprendo demais com isso. No fundo dá certo para quem tá disposto. Você escutou o cliente e num primeiro momento, você poderia dizer: "que loucura! Não vamos fazer. A gente não vende isso, a gente vende carne". Como muita gente fica ofendida quando alguém pergunta se tem produto vegano. "Tá louca! Produto vegano num açougue?" Aí vem o cliente e diz: "Ah, mas a minha esposa é vegana, seria mais fácil comprar tudo num lugar só."

Eu vejo que quanto mais a gente está aberto os nossos clientes - que são nossos consultores - mais próspero nosso negócio tende a ser. Eles nos falam o que a gente teria que vender. Porque não estamos vendendo? Então fico muito feliz em ver esse nível de engajamento que você tem de escuta ativa. O fato do Marcelo ter feito curso às vezes nem sabendo muito bem porque vai de encontro ao que falamos sobre manter sua despensa (cérebro) sempre cheia. Porque se você tiver os ingredientes ali alguma hora você vai ser demandado para usar, se tiver na sua despensa vai ser mais rápido.

Então, de fato, isso é um exemplo de dois empresários que não tem preguiça de colocar a mão na massa. O que mais poderiam nos contar sobre o Vila Beef?

Paulo: Falando em produto vegano, o nosso bife Wellington é congelado e você põe congelado no forno, porque a carne já tá no ponto, você não vai assar a carne, vai assar massa só, diferente do bife Wellington - que a gente faz também, mas por encomenda - o congelado eu tenho na prateleira. Ou seja, se você quiser comer hoje, você vem aqui pega e leve e faz. Que é um diferencial. E aí criamos um Veggie Wellington, que é uma pupunha inteira com champignon, couve e a massa. Fazemos por encomenda.

Marcelo: Ele é um ótimo acompanhamento para a carne.

 

Andréa: Marcelo, vocês entregam isso para outras cidades ou vocês ainda não podem?

Marcelo: A gente entrega quando é cliente final, se tiver entrega rápida e viável. Não é distribuição própria. Sedex, por ônibus também, quando a viagem é de uma noite.

 

Voltando ao que meu pai comentou, que a gente como da pecuária, Zootecnista, a gente tinha ideia de vender o boi inteiro. Todo mundo ganha. Consumidor mais opções, açougue vende mais cortes, ajuda o frigorifico, etc. Só que esse desafio é de longuíssimo prazo. Só que não dá pra forçar a venda de outros cortes porque o cliente não compra.

Paulo: Em 2019, 70% das vendas se resume a cinco cortes.

Andréa:  E a que vocês atribuem essa preferência? Não parece estar relacionado ao preço.

Paulo: É cultura de consumo, né.  Já tive cliente que entrou aqui pedindo picanha, viu nossas opções - na época tinha poucas opções de marca - e ele achou caro. Falei que tinha outros cortes que iriam surpreendê-lo, mas ele foi embora e não levou nada. Queria picanha. Então, essa cultura que dificulta a gente vender o boi inteiro.

Marcelo: Não dá para a gente forçar porque senão perde venda.

Paulo: Se somar os cinco cortes já dá 80%, não precisaria ter o resto.

Andréa: Com certeza em termos de passivo de estoque seria positivo, e vocês teriam as vendas garantidas, no entanto se fosse fácil...

Paulo: A gente insiste em ter cortes diferentes para surpreender os interessados.

Andréa: Você sabe que tem algumas lojas, que eu tenho conversado, e o que eles estão trazendo é assim, a cada semana eles trabalham com corte específico. Eles têm os outros, mas é o corte daquela semana seja se for para assar ou para vender. Isso tem feito com que eles colocam em evidência alguns outros cortes que antes não eram procurados.

Por exemplo, a semana do Short Rib. É impossível a pessoa não se deparar com alguma coisa do short rib naquela semana, seja na comunicação via redes sociais, via e-mail, na loja física, na negociação. Pois é por isso que picanha é a mais vendida, não é pelo sabor, não é pelo preço, é porque a vida inteira a gente associou churrasco à picanha. Claro que para desconstruir essa imagem levará tempo. E é muito importante que vocês liderem esses movimentos, porque só vai liderar esse movimento quem tiver um pouquinho mais de lastro e de coragem.

E agora eu queria falar no último desafio. Eu quero saber de vocês dois aí, qual que é o principal desafio de trabalhar com o pai e qual que é o principal desafio de trabalhar com o filho? Não sei se tem mais alguém da família trabalha no negócio, mas eu vou trazer em termos familiares aqui. Quais as vantagens e as desvantagens de um negócio familiar no ramo da carne?

Marcelo: Acho que a vantagem de trabalhar junto são as decisões que podem ser tomadas rapidamente e aproveitar o convívio, entre pai e filho é bom. É uma relação boa! E desafio é que o convívio muito próximo também destaca as diferenças, porque elas existem, não só entre pai e filho, entre qualquer pessoa. É ter a sensibilidade de entender a diferença, mas o objetivo é o mesmo. É só alinhar as expectativas e o caminho. Acho que tem gente que coloca muita preocupação em trabalhar com os pais, se não fosse meu pai seria outro investidor e teria que alinhar o caminho e objetivos da mesma maneira. Pode ser que as vezes misture coisas pessoais, mas é um aprendizado, tomar cuidado, mas não é uma coisa chata e difícil.

Andréa: Paulo e você? É mais tranquilo trabalhar com o filho?

Paulo: Tem mais confiança que em uma outra pessoa, sabe que não está te roubando, então você trabalha mais tranquilo. Aí, como ele falou, é alinhar os objetivos e aparar as diferenças que tudo vai caminhando.

Andréa: Marcelo, gostaria de pedir que olhasse para os olhos do seu pai e falasse algumas palavras para ele sobre este envolvimento tão importante em seu negócio, vamos la?

Marcelo: Aproveito o momento para te agradecer, não como investidor, mas como pai, em confiar com essa confiança infinita e o apoio em acreditar na ideia do filho, reconhecer que era uma ideia importante e viável, porque se fosse uma ideia que não desse certo com certeza, como pai e investidor, você ia falar que não ia investir. Então eu só tenho de agradecer e dizer que continuo aprendendo e continuo te conhecendo como pai e como empresário. Acho que são dois grandes aprendizados aí que eu estou levando e vou levar pra vida.

Andréa: Tem direito de resposta, tá? Eu não vou nem interromper, segue aí Paulo, sua vez.

Paulo: Acho que a mensagem que eu daria pra ele é vamos acreditar que nós vamos chegar lá, tá difícil, mas nós vamos chegar lá. Trabalhar com ele, já estamos aí a 5-6 anos, tem sido muito bom. Ainda vamos atingir nossas expectativas, que ainda não chegamos lá.

Andréa: Muito bom. Muito além de acreditar a gente vai colocar a mão na massa e vamos fazer, e eu tenho certeza que vocês se dedicaram. Não sei o quanto você acompanhou, Marcelo, mas o Paulo se dedicou muito aqui, no Casa de Carnes 4.0. Ainda tem muito a se dedicar a gente está aqui a disposição. E também estamos aprendendo as melhores formas de dar suporte a vocês, entregar os melhores conteúdos, entregar as melhores ferramentas, porque cada aluno tem uma necessidade diferente, não conseguiríamos entregar tudo de uma vez só.

Tenho certeza que o trabalho que vocês estão fazendo é diferenciado e precisa ser enaltecido. Com todo respeito pelo trajetória que já trilharam, foram escolhidos entre os alunos de destaque de 2019! Parabéns e continuem contando conosco!

Açougue gerenciado por pai e filho é referência em Ribeirão Preto

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Entrevista concedida em: 06/03/2020