Casal transforma açougue de periferia no melhor da cidade

Com direito a Oscar no Varejo de Carnes, os gestores da Hoffmann Casa de Carnes nos mostram que o trabalho em equipe e a admiração mútua foram responsáveis por levar o negócio a outro patamar. Confira a entrevista.


Desde que conheceu Eduardo, Viviani soube que o futuro marido queria ser dono de açougue. "Quando o conheci perguntei a ele sobre suas pretensões profissionais, isso era importante pra mim. Ele era açougueiro de supermercado na época. Ele me disse que tinha o sonho de ter sua própria casa de carnes. Eu fiquei reticente, tinha um pouco de preconceito com a profissão. No entanto, fiquei feliz por ele ter um projeto de vida, um sonho a perseguir."

Hoje, proprietários da mais conhecida casa de carnes de Lucas do Rio Verde, MT, o casal foi eleito entre os melhores alunos do Território da Carne em 2019, mesmo ano em que receberam uma importante premiação da cidade e, por isso, tivemos a honra de conhecer um pouco mais da sua história através de uma entrevista cheia de aprendizado, emoção e provas de que a admiração é um tempero imprescindível na vida de quem decide misturar CPF e CNPJ na certidão de casamento. 

Andréa Mesquita: Nossa conversa vai ter uma importante regra: complementaridade entre homem e mulher é importante, por isso quero escutar o lado dos dois! Para começar, estão casados há quanto tempo? Como começaram o negócio juntos?

Viviani Hoffmann: Desde 13 anos que ele trabalha com a carne. Sempre admirei a alegria dele em fazer o trabalho. Nos casamos e depois de seis anos o projeto nasceu.  Ele tinha uma meta de até os 36 anos ter sua própria casa de carne. O tempo foi passando e nos vimos pressionados a começar logo. Dinheiro não sobrava já que eramos funcionários assalariados. Então decidimos abrir algo com o seguro desemprego. O valor suficiente para pagar 3 meses de aluguel, mas o prédio nem chegou a ser usado porque fomos surpreendidos a fazer as questões burocráticas de abertura de negócio.

No começo eu queria investir em outra coisa, mas ele tinha decidido que queria o açougue, então eu decidi apoiar. Isso foi em 2013. Compramos todo o material e equipamentos fiado, começamos o negócio devendo uns 30 a 40 mil (reais). A primeira vaca que foi vendida o dinheiro estava todo comprometido com os boletos do dia seguinte.

Andrea: É preciso muita coragem, me dá até uma dor no estomago de pensar. E como foi depois de tomar esta difícil decisão?

Viviani: Eu trabalhava no Correio, não pude sair a princípio porque era com esse dinheiro que pagávamos o aluguel da casa. Fomos ficando assim. Ajudava nas minhas folgas, também estudava a noite na época. Eu fazia serviços administrativos e pagamentos. Era o Eduardo e mais um funcionário apenas.

Andrea: Vocês faziam tudo?

Eduardo: Isso mesmo. Antes de contratar o funcionário eu fazia sozinho, às vezes começava as atividades às 6h e ia até às 22h, tinha só eu para fazer tudo. 

Viviani: Isso dentro da empresa, depois tinha o serviço de casa e as coisas que fazíamos fora do horário, por exemplo fritar o torresmo. Era em casa, às vezes ficávamos até às 3h da manhã fritando pra vender no dia seguinte.

Andrea: Considerando que vocês começaram o negócio com 40 mil de "dívidas" para pagar, qual foi o dia que vocês conseguiram falar "ufa, dívidas pagas, agora a gente vai seguir com o dinheiro do açougue mesmo"?

Viviani riu.

Eduardo: Os primeiros 6 meses de empresa foi tão difícil que eu queria fechar... 

Eduardo se emociona.

Viviani: Eduardo não pode nem contar a história que já quer chorar. Risos.

Foi tão complicado na época que abrimos, que fizemos uma conta superficial de quanto custava pra manter o açougue aberto por dia, deu em torno de 180 reais. Precisávamos vender muito mais para compensar. Ele abria às 7h e ficava até às 20h pra tentar vender. Um dia eu sai do serviço e cheguei no açougue e a porta estava fechada, ele tinha fechado ao meio dia. Perguntei o que estava acontecendo, ele estava sentado no chão e disse que não aguentava mais, pois não tinha vendido nenhum real até aquela hora. Falei para ele: "Não, Eduardo! Não vamos desistir disso aqui. Não era seu sonho? Calma aí, vamos fazer alguma coisa. As pessoas precisam saber que o produto que você vende é muito bom, é diferente". Fechamos o faturamento daquele dia em 50 reais...

Complementariedade do casal torna açougue de periferia, um dos melhores da cidade

Foto: Primeiro açougue Hoffmann

Andrea: Como foi ter essa fortaleza ao seu lado, Eduardo? Nesse momento foi ela que te levantou?

Eduardo fez que sim. 

Viviani: Naquela época não existia fabricação de linguiça artesanal aqui na cidade, a que ele fazia era muito boa. Ficamos pensando em como fazer as pessoas saberem disso. Também não tinham mídias sociais, nem marketing de diferenciação, não tínhamos acesso a nada disso.

Falei para ele que não iriamos deixar as pessoas acharem que estavam certas, muitas pessoas - até amigos - falaram que não ia dar certo, que não conseguiríamos competir com gente grande.

Andrea: Normalmente quem fala isso não tem coragem de fazer o que você faz...

Viviani: Muita gente entrava só pra falar que não ia dar certo, na época nosso açougue não tinha nem fachada. Abrimos só com um adesivo na porta. Não tinha dinheiro para colocar, era 1500 reais, muito caro. Eu falava pra ele que a gente não ia deixar as pessoas estarem certas, usava isso para animá-lo e até para reafirmar a mim mesma os motivos para continuar.

Andrea: Tudo isso aconteceu nos primeiros 6 meses?

Viviani: Sim. Pensamos em “dar” praticamente de graça para as pessoas experimentarem e viciarem. Tivemos que colocar o preço bem baixo. Nem pagava o custo de produção.

Eduardo: Era mais para a pessoa entrar e experimentar, para tentar começar a venda. "Cupim mexicano" e linguiça artesanal ninguém conhecia, praticamente. Ficava rouco para vender 1kg. O cupim era vendido muito barato, hoje, aqui no MT, quase todo mundo conhece. É muito vendido.

Viviani: As pessoas tinham muito preconceito com o cupim, era muito barato. Tipo R$8,99 por um quilo de produto.

Eduardo: Hoje vendo a 40 reais/kg.

Andrea: Olha só, você abriu mercado e hoje as pessoas vêem valor. Vocês já faziam a nossa famosa técnica do queijo lá atrás!

Viviani: Tínhamos uma grill pequena e o Eduardo preparava o cupim fatiado nela, ficava um cheiro muito bom. Falei pra ele oferecer aos clientes, todos que entravam e provavam acabavam comprando. Era muito bom, nem eu tinha comido daquele jeito. Nós fomos fazendo assim. Tudo para chamar o cliente. A dificuldade era ele entrar, depois que entrava não saia sem carne!

Nosso açougue na época era em um bairro mais simples, muitos clientes atrás de preço baixo. Queriam carne barata. Fiz cartazes de cartolina e enchi a parede com promoções. Como eu ainda trabalhava no correio, fazia no tempo que dava.

Andrea: Você fazia os cartazes, ia trabalhar e deixava ele com a missão de atender os clientes, então?

Viviani: Eu falei que às vezes a gente aprende alguma coisa na escola e acha que não vai usar, olha eu fazendo cartazes. A gente nunca aprende à toa!

Complementariedade do casal torna açougue de periferia, um dos melhores da cidade

Foto: Eduardo Hoffmann em sua primeira loja, com destaque para cartazes escritos à mão pela Viviani

Andrea: Isso é para gente diferenciada, a maioria coloca esses aprendizados numa caixinha e nunca mais abre. Em 15 minutos de conversa você está nos dando inúmeros exemplos de que quem quer dá um jeito!

Viviani: Os cartazes começaram a chamar mais gente, mas sempre trabalhando pra pagar conta. Não sobrava nada. O movimento aumentou um pouco, a estrutura começou a ficar limitada, já faltava balcão e Eduardo queria comprar mais um, alugar a sala do lado pra ampliar!

Eu, como sou mais pé no chão, falei que o que faltava era as pessoas conhecerem o açougue, muita gente falava que não conhecia. No Correio eu sempre comentava sobre o açougue e onde era, as pessoas diziam que passavam lá e não viam. Tinha uma arvore em frente a loja, fui na prefeitura atrás de autorização pra cortar. Insisti muito, até chorei, o rapaz falou que só cortaria se tivesse cupim ou estivesse condenada. De tanto insistir, consegui que ele autorizasse com a condição de que eu colocasse outra menor no lugar.

Depois disso fomos atrás de arrumar a fachada. Agora não teria mais como não ver esse açougue!

Eduardo: Mas a gente não tinha dinheiro... e então a Vivi foi pedir pra sua mãe.

Viviani: Custava R$1500, mas precisava de 1/3 de entrada pra fazer. Fizemos. Agora sim precisávamos vender! Comecei a postar algumas coisas no facebook. Um amigo ajudou o Eduardo chamando as pessoas na calçada pra conhecer o açougue. Observamos que o movimento de domingo foi aumentando porque os demais mercados não ficavam abertos. Começamos a ficar mais conhecidos. O público também foi mudando, os "patrões" comiam a carne na casa dos funcionários e gostavam, depois vinham comprar.

Andrea: Fizeram este trabalho de atração de clientes antes de ampliar? Arrumar a fachada antes de expandir foi uma excelente decisão.

Viviani: Quando o público mudou começamos a ter um problema em relação a localização, já que o bairro tinha má fama por causa da criminalidade. Quando mudamos para a cidade não sabíamos disso. Começaram a falar que nosso produto era muito bom, mas que o outro lado da cidade era mais desenvolvido e essas pessoas não iriam até onde estávamos para comprar.

Andrea: Você tinha um produto bom para um cliente exigente, mas estava no lugar errado, é isso?

Eduardo: Estávamos tentando vender nosso produto para as pessoas erradas. Tanto que quando viemos para o centro - local que estamos hoje - nosso cliente mudou 100%. Atingimos toda à classe alta.

Viviani: Lá a gente vendia muito, tinha mais trabalho, mas pouco retorno. Quando fomos mudar para o centro foi outro processo. Eu estava com muito medo de enfiar a cara em dívida de novo. O primeiro balcão que Eduardo comprou foi R$12.000. Abrimos só com ele, depois Eduardo falou que precisaríamos de mais um, depois outro, e uma geladeira pra bebidas...

Eduardo: No começo usamos a geladeira de casa para as bebidas. Eu acabava de pagar um balcão, já comprava outro. Todo o dinheiro que entrava das vendas, ia diretamente para a loja, para melhorar a estrutura e trazer alguma inovação.

Viviani: Eduardo ficou 2 anos sem comprar roupa, usando meia e cueca velha. Eu comprei 3 peças de roupa pra gestante porque engravidei, usei as roupas ainda 6 meses depois e as pessoas perguntando se eu estava grávida de novo ou ainda não tinha nascido, risos.

Complementariedade do casal torna açougue de periferia, um dos melhores da cidade

Foto: Primeira loja após a ampliação

Andrea: Tudo isso só para poder investir na loja e realizar o sonho de empreender do Eduardo? Essa história precisa atingir aqueles que desistem no primeiro obstáculo!

Viviani: Foi muito sofrido. Dividíamos o aluguel de casa com a cunhada, era 1100 reais. Ela foi embora e deixou o aluguel pra gente pagar sozinhos. Não conseguimos mudar para uma mais barata porque não havia dinheiro para a pintura a casa e pagar o aluguel mais barato. Fomos obrigados a permanecer lá por isso. Foi muito perrengue no começo. Todo o dinheiro era para o açougue. Hoje as pessoas olham a loja bonita, mas não sabem como foi difícil.

Complementariedade do casal torna açougue de periferia, um dos melhores da cidade

Foto: Interior da loja nova localizada no centro de Lucas do Rio Verde - MT

Andrea: Agora vão saber. Depois de 3 anos de loja aberta, vocês decidiram mudar para o centro porque seu cliente estava lá. Como foi essa jornada?

Viviani: Foi outra dificuldade. Os clientes começaram a ter ciúme e falavam: "vocês vão largar a gente, não vai dar certo..." Alguns pararam de comprar, alguns voltaram depois, outros não. Eles falavam: "o que vão fazer no centro? No meio das lojas de moveis, eletrodomésticos e roupas, nem mercado tem lá? Não vai dar certo."

Lá fomos nós pro meio deles. Eu fiquei com medo, falava para o Eduardo "será que compensa? Será que vai dar certo?" Ele falava: "precisamos ir, nossos clientes estão lá, estão cobrando a gente pra ir pra lá."

Era pra eles que ele (Eduardo) queria vender. São os clientes que só querem saber se o produto é bom e se estão sendo bem atendidos, não perguntam preço. As reclamações do pessoal mais simples quanto ao preço desgastava muito o Eduardo.

Andrea: É isso que eu falo quando digo aos alunos que precisam escolher seus clientes. Mas exige coragem. E isso vocês tiveram. Como foi o dia que mudaram pra o centro?

Viviani: Resolvemos mudar e aí mudaríamos com o quê? Dinheiro não tinha...

Eduardo: Nós fizemos outro empréstimo.

Viviani: Na época a gente tinha movimentação no banco, mas já tínhamos pego empréstimo pra reformar o ponto atual. Não houve nenhum ano em que não fizemos melhoria, ampliamos, pintamos, colocamos móveis planejados. A gente emprestava por conta própria, pagava parcelado com menos juros, mas tiveram vezes de não ter de onde tirar aí pegamos empréstimo no banco. Fazer o quê? Eu tinha um limite no Correio, que os funcionários podiam fazer. Para funcionar a empresa, eu fiz e estou pagando ele até hoje, caríssimo.

Pegamos 10 mil (reais) para fazer a mudança. O espaço era muito grande, não tínhamos mobiliário. Tinha que comprar móveis, fomos na loja de planejados. Meu Deus do céu! 25 mil reais. Pensei, "como vamos pagar tudo isso?" Sem contar os outros 10 mil emprestados. Eu ficava com muito medo de ter muitas dividas e não conseguir pagar. Já passei necessidade na infância e não queria passar novamente. Mas o Eduardo sempre acreditou e disse que daria certo! Então juntos decidimos e fizemos. Ficamos 3 dias fechados para fazer a mudança e inauguramos numa quinta-feira. Eu queria algo mais estratégico, claro, mas um final de semana fechado faria muita falta pra gente e fomos sem muito planejamento mesmo!

Andrea: Em 3 dias fizeram a mudança toda?

Viviani: Fizemos tudo, dentro e fora de horário comercial. Os funcionários ajudavam. Já tínhamos 3 nesta época.

Andrea: Literalmente trocaram o pneu com o caminhão andando.

Viviani: Eduardo não saia muito da loja porque não tinha jeito. Eu sentia muito medo de não dar certo, das pessoas não quererem vir. Inauguramos na quinta-feira e no domingo já vendemos 3x mais do que vendíamos na loja anterior.

Andrea: Nossa, até me arrepia! E como ficou a cabeça? Sensação de ter acertado a mão?

Casal: Foi!

Viviani: Eduardo sempre foi muito confiante, ele sabia que ia dar certo. A dívida me preocupava muito. Por isso também me esforçava pra não deixar ele desistir.

Eduardo: Com 60-90 dias estávamos vendendo 10x o preço do que vendíamos antes.

Andrea: Com margem equivalente, maior ou menor?

Eduardo: Ainda não muito maior, mas depois começamos agregar mais valor.

Viviani: Nós tínhamos medo de aumentar muito o preço, nossos clientes antigos reclamavam muito disso. Parece que não se importavam se o produto era bom ou não. Comparavam a gente com um estabelecimento mal falado, que vendia carne estragada só para reclamar do preço.

Tinha um rapaz que “recuperava” carne podre pra vender em um estabelecimento perto do nosso, deixando de molho na água sanitária. Eu não achava que era verdade. Todo mundo na cidade sabia.

Por isso os clientes não entendiam o porquê meu preço era maior, mesmo que pouca coisa. Era um absurdo comparar a gente com aquele lugar, Eduardo ficava indignado.

Andrea: Vocês sabiam explicar a diferença?

Eduardo: Eu explicava que a nossa carne chegava todos os dias, menos de domingo, que só trabalhávamos com carne fresca.

Viviani: Eduardo tinha muita dificuldade em argumentar quando o cliente compara nossa carne com a do outro lugar, ele perdia a vontade de atender o cliente. "Se não vê a diferença não precisa levar", ele falava. O semblante dele mudava.

Quando mudamos pra cá (centro) os clientes mudaram, começamos a vender e aumentar o preço. A maioria dos clientes da primeira loja pararam de comprar. A gente entende também a limitação de quem ganha salário mínimo pra investir tudo na carne.

Andrea: Vocês ficaram confortáveis em saber que iriam vender para outro tipo de cliente? Como foi esse processo na cabeça de vocês?

Eduardo: Nunca fizemos separação no atendimento entre clientes "pobres" e "ricos". Até hoje orientamos os funcionários a atenderem bem todo mundo. Mas chegou um momento em que percebemos que para chegar onde queríamos, a margem pra atender o mais popular era muito baixa, não conseguiríamos crescer vendendo só para esse público.

Viviani: Eduardo começou a perceber que vinham clientes que olhavam e pediam: "me vê 2kg de picanha, que isso é bom demais", e nem perguntavam o preço. Só pediam para colocar na sacola. Para ele isso era muito bom. Era o tipo de cliente que ele queria atender. Fizemos uma conta rápida que para cada cliente deste tipo, precisaríamos atender 10 do outro público. Não compensava.

Eduardo: Para você ter uma ideia, eu tenho uma linguiça artesanal hoje que custa 85 reais o kg, eu tenho a picanha, maminha e o cupim "mais caros" da cidade. O pessoal que entra aqui não quer saber do preço, só da qualidade do produto.

Viviani: Era isso que ele queria, clientes que valorizassem a empresa, a marca e o produto.

Andrea: Vocês já conseguem ter essa percepção de marca com Hoffmann Casa de Carnes? As pessoas já reconhecem como um produto de qualidade?

Eduardo: Sim, sim. A gente trabalha muito em cima da marca, não fazemos propaganda de preço, a maior parte é na valorização da marca mesmo.

Viviani: Até aprender isso foi difícil pra gente. No outro bairro era tudo em cima de promoção, atrair gente que comprava qualquer coisa pelo menor preço. Quando mudamos pra cá foi preciso fazer diferente, hoje tenho certeza que qualquer pessoa que chega na cidade e pergunta qual é o melhor açougue, com cortes especiais, todo mundo conhece a gente.

Eduardo: Nós já somos reconhecidos nas cidades da região também, a linguiça artesanal eu só tenho liberação municipal, mas estou indo atrás pra poder vender para outras butiques de carne da região. Eles querem trabalhar com nossos produtos.

Andrea: Aí você fortalece ainda mais sua marca, certo?

Eduardo: Já teve cliente dessas outras butiques que perguntavam "porque vocês não têm linguiça da Hoffmann aqui?", achando que era uma franquia!

Viviani: Tem gente que entra na loja e pergunta quem é o dono da loja, rs.

Andrea: Que bacana! Deixa eu fazer um comentário sobre promoção. Na maioria das vezes a palavra promoção é associada apenas aqueles cartazes com preço na porta do açougue. Mas promoção é muito além disso. É o ato de promover o produto de vocês e devem continuar fazendo isso. Aquilo que fizeram com o torresmo ontem no Instagram foi uma promoção. Tem que ficar claro que promoção não é desconto. Pra classe mais baixa a promoção através de preço é importante. Não tenha medo de usar a palavra promoção, esse é um grande erro dos comércios. Usem ações promocionais que valorizam o produto de vocês. Uma classe alta pode não gostar de desconto, mas a promoção não pode deixar de existir.

Viviani: Às vezes ainda colocamos desconto em algum produto, principalmente quando precisamos diminuir o estoque parado. Mas tem muitas promoções que não fizemos porque acabamos focando muito no operacional e deixamos de lado o estratégico.

Casal transforma açougue de periferia no melhor da cidade

Foto: Interior da nova loja

Andrea: Vou dar uma dica pra vocês. Aqui no Território também nos posicionamos com um público bem alto. Em vez de darem desconto, ofereçam o produto como bônus em alguma outra compra. Estudos mostram que as pessoas dão mais valor a bônus do que desconto. O cliente já foi pra pagar seu preço, na cabeça dele o desconto não é vantagem.  Dessa forma a gente começa a mudar a cabeça do nosso cliente, isso funciona para alguns tipos de público. Meu público é de alto padrão e nunca me pediu desconto porque já sabe que a gente estudou muito para chegar aqui. É igual a história de vocês, chega a ser um desrespeito com seu produto e sua empresa lhe pedir desconto.

Eu quero saber do seguinte, falamos do começo, dos primeiros 6 meses, da mudança para o centro que precisou mudar a cabeça porque mudaram os clientes, hoje, daqui pra frente, o que vocês enxergam como desafio? Como se posicionam pensando adiante? Como se enxergam nesse cenário como referência, que é uma enorme responsabilidade?

Viviani: Então...vou voltar um pouquinho lá atrás pra finalizar uma parte da história. Começamos com 1 funcionário, 2, 3. Mudamos pra cá, contratamos mais gente, aumentaram as vendas, novos produtos de empório, aí chegou em um ponto que já estávamos com 12 funcionários, mas a gente não via o dinheiro sobrar, na outra loja vendíamos menos, mas sobrava alguma coisa. Foi aí que eu decidi sair do correio e vir ajudar o Eduardo. Tive uma pausa porque tive um filho, mas assim que completou 2 anos eu vim ajudar. Percebemos que tinha mais bolas pra equilibrar nas mãos.

Faturávamos 3 milhões no ano e não sobrava, percebemos que precisávamos investir em gestão, pois até agora tinha sido só operacional. O dinheiro entrava e pagava as contas, sem controle. Decidimos mudar de nível na parte gerencial.

Nesse período, de um ano pra cá, começamos a pensar em maior margem, focar na marca, treinar a equipe e aprender novas coisas, a parte estratégica. Foram 3 níveis no nosso negócio: 1. Dificuldade do começo, 2. Desafio de mudar e aumentar, 3. A parte gerencial.

Andrea: Quantos anos depois da abertura teve essa mudança gerencial?

Eduardo: Abrimos há 7 anos.

Viviani: A mudança gerencial aconteceu há 1 ano.

Eduardo: Tínhamos experiencia com o trabalho, mas não com administração.

Viviani: A gente não tinha controle de nada.

Andrea: Foi mais ou menos a mesma época que começaram com o Casa de Carnes 4.0?

Viviani: Sim. Engraçado que eu comecei seguir você bastante tempo atrás, apesar de não estar trabalhando aqui eu buscava informações relacionadas à empresa. Eu mostrava para o Eduardo, mas ele era muito resistente a mudanças. Eu segui outras pessoas também, mas ele não queria. Foi aí que eu resolvi procurar outras coisas, fui atrás de um sistema financeiro, ele não deixava ninguém entrar, mas eu não tenho problema com isso, se não sei fazer procuro alguém que saiba pra eu aprender e andar mais rápido. Paguei uma consultoria financeira, percebemos que começaram abrir outros negócios na cidade e que precisávamos melhorar alguns pontos, fui buscando. Teve a questão da mentalidade que precisamos mudar, fiz alguns coachs e mentorias. Começamos a estabelecer missão, valores, princípios, treinar a equipe, dentro dos nossos limites que temos aqui.

O Eduardo estava achando muito pesado esse negócio de ser empreendedor, ele gostava de ser açougueiro, não queria continuar muito tempo com o negócio. Conversamos muito e resolvemos que queríamos desenvolver, crescer. Nosso foco é ser referência no estado do MT.

Eduardo: Em 2 anos eu quero produzir a nossa carne!

Viviani: É uma coisa que ele quer muito e eu vou junto, tudo que eu posso eu acompanho. Eu quero desenvolver a minha parte, expandir a empresa e ele quer a produção da carne. Porque aqui a gente está dependendo totalmente do frigorífico. Todos os cortes especiais que fazemos, tem que selecionar 1 de 10 vacas e ainda assim não dá as vezes.

Eduardo: O frigorífico não mantém o padrão, peço novilha com marmoreio, com sangue Angus e eles não fornecem.

Andrea: vocês não pediram minha opinião, mas eu vou dar! Tenho alguns alunos que fizeram o mesmo movimento que vocês estão fazendo e o contrário também: pecuaristas que abrem a sua própria casa de carnes. Qual a experiência que vejo disso? A maioria já tem inúmeras bolas para equilibrar e coloca mais uma porção, manter o equilíbrio fica mais difícil. A ideia é boa, a localização de vocês também, o que sugiro é façam a expansão da marca até que ela consiga rodar sozinha, quase que sem vocês. Depois partam pra um desafio deste. Porque a produção animal hoje, se não tiver escala você não consegue fazer girar. Aí corre o risco de deixar cair algo que está com uma expansão maravilhosa para pegar mais uma etapa da cadeia e ambas fracassam...

Vocês têm potencial e se complementam muito, pra mim um casal perfeito por causa das características, mas cuidado porque a oportunidade é inimiga do foco. Se aparecer um sítio e dividirem a atenção com a produção, podem deixar cair a marca que o mundo está querendo conhecer. Não deixem acontecer isso porque o mais difícil vocês já fizeram. Vocês têm um nome e estão em um lugar que as pessoas já exigem um mínimo de padrão. Não deixem isso cair porque pode demorar muito para se reestabelecer.

Viviani: Hoje a gente está conversando com uma outra empresa de consultoria também, pra fazer tudo certinho. Antes de partir pra essa etapa nós queremos deixar essa empresa organizada, rodando sozinha, com processo, com ficha técnica.

Quando eu entrei aqui (no TC Academy) eu falava pro Eduardo que precisava descrever o processo de produção, mas ele nem me escutava. Ficava bravo. Eu assistindo suas aulas, vi a aula que falou da ficha técnica, queria que ele ouvisse, mas ele chegou tarde. Fiz ele assistir mesmo assim, o rapaz falava da importância da ficha técnica, aí caiu mais uma fichinha. Depois conversando com um funcionário, falei que ia escrever certinho tudo que precisava fazer e eles amaram o resultado. Demorou um ano para conseguirmos implementar, mas aconteceu! Um rapaz que nunca tinha feito, seguiu os passos e fez certinho.

Andrea: Fico feliz! A gente não descobriu a roda.  As empresas que funcionam não fazem nada maquiavélico, fazem o simples que funciona. Se precisarem de ajuda pra desenvolver, conta com a gente.

Para finalizar, algum momento vocês pensaram em desistir?

Viviani: Olha, muitas vezes a gente pensou, eu pensei em desistir, mas não falava pra ele. Eu pensava, "gente, eu como em casa e é tão bom, as pessoas precisam da gente, precisam experimentar algo de qualidade, feito com carinho, como se fosse pra nossa família." Nesses 7 anos o único motivo que nos faz continuar é isso, a gente já poderia ter parado mas queremos que as pessoas possam colocar um produto de qualidade na mesa!

Andrea: Eduardo, tenho uma má notícia pra você quando disse que "não queria ser empreendedor". Sabe qual é a diferença entre empresário e empreendedor? Empresário é aquele cara que tem um CNPJ, empreendedor tem um sonho e quer fazer dar certo. E vocês são empreendedores acima de qualquer CNPJ e isso ficou claro desde o princípio de nossa conversa. Além de um baita açougueiro saiba que você é um empreendedor que faz dar certo. Deus ajuda quem é assim.

Viviani: Eu falo pra ele que se não tivesse esse lado empreendedor não teria dado certo!

Casal transforma açougue de periferia no melhor da cidade

Foto: Fachada da nova loja

Em nome do TC quero parabenizar aos dois pelo trabalho lindo e pela história sensacional que vocês estão escrevendo no mercado da carne brasileiro. Ainda vamos escutar muito falar em seu nome e na Hoffmann Casa de Carnes.

Casal transforma açougue de periferia no melhor da cidade

Viviani ao lado de Eduardo Hoffmann, cercados de seus fiéis colaboradores

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Entrevista concedida no dia 28/02/2020.